
Verbete Esperança na Wikipédia: pt.wikipedia.org/wiki/Esperança
Há alguns anos, uma pergunta surgiu de modo inesperado durante o trabalho clínico: por que, de modo geral, as pessoas vivem em esperança? mesmo quando atravessam circunstâncias que pareceriam anular qualquer perspectiva? Essa pergunta não nasceu de uma agenda teórica prévia, mas de uma estranheza genuína diante do que se observava repetidamente no consultório. Desde então, fui desenvolvendo uma reflexão que não cessa, pesquisando, conversando, revisando formulações, e percebendo que a questão exigia uma precisão conceitual cada vez maior para não se perder em sentidos comuns que mais encobrem do que esclarecem.
Preferibilidade (esperança), a escolha que nos guiamos:
Hoje esse trabalho está se tornando um estudo bem mais amplo, rigoroso no bom sentido da palavra, isto é, empenhado em escrever algo que faça realmente sentido para quem se dedica à investigação séria do tema. Nesse percurso, o termo “preferibilidade” veio substituir formulações anteriores por ser mais preciso: ele nomeia aquilo que estruturalmente orienta o lidar humano em direção ao que se apresenta como melhor, e essa precisão tornou o estudo consideravelmente mais profundo do ponto de vista filosófico e clínico.
© Copyright – Bacellart Psicólogo USP Paulista. O ensaio aqui publicado pode ser reproduzido, no todo ou em parte, desde que citados o autor e a fonte.
Foi com serenidade que soube de uma citação desse trabalho numa página da Wikipédia. A menção chegou como um convite a explicar, em linguagem acessível, o que ando chamando de Esperancialidade, expressão escolhida para não confundir esperança com otimismo fácil nem com aquela disposição animada que se cobra das pessoas como se fosse obrigação. Quem chega ao consultório raramente pede esperança com essas palavras; costuma pedir alívio para uma noite sem sono, para um relacionamento que se desfaz, para um trabalho que adoeceu. É no meio dessas queixas concretas que se percebe operar algo mais discreto: a capacidade de continuar apostando que ainda há caminho.
Exemplo: Uma pessoa depressiva grave, faz psicoterapia e consulta com psiquiatra online – ainda há uma “minima” esperança, apesar de tudo:
A Esperancialidade não é um sentimento que se liga e desliga, mas um modo de a pessoa permanecer voltada para o que ainda pode vir, mesmo quando não enxerga saída imediata. Penso nela a partir do paradigma do amadurecimento de Winnicott, para quem o ser humano vai se constituindo quando encontra, desde muito cedo, um ambiente suficientemente bom que lhe permita seguir existindo sem rupturas que o quebrem por dentro. Essa continuidade de existir é precisamente o solo de onde brota a confiança de que vale a pena prosseguir.
Quando alguém perde esse chão, por um luto, por uma traição, por um fracasso que parecia definitivo, o que se abala não é apenas o humor: é a própria sensação de poder seguir sendo quem se é. O trabalho clínico, então, consiste menos em injetar ânimo e mais em restaurar as condições para que a pessoa volte a se apropriar da própria história, em seu tempo, sem que ninguém a apresse de fora.
Minha maneira de trabalhar foi se formando no convívio demorado com a fenomenologia existencial e com a psicanálise do amadurecimento, completadas por recursos da terapia comportamental quando o cotidiano de alguém precisa de organização mais direta. Rollo May acompanha essa caminhada ao insistir que existir é escolher, é suportar a angústia que acompanha toda escolha e é ter a coragem de criar sentido onde ele não vem pronto. Essa lição se encontra com a de Winnicott num ponto preciso: ambos recusam a pressa, ambos respeitam o ritmo singular de cada pessoa, e ambos entendem que ninguém amadurece por ordem alheia, e sim quando se sente acolhido o bastante para arriscar.
Há quem espere da psicoterapia uma fórmula, e o que se oferece é outra coisa. O trabalho clínico visa a que a pessoa recupere a possibilidade de se mover na direção de uma vida que ainda lhe faça sentido, atravessando a perda, a ansiedade, a depressão, o conflito amoroso, a crise no trabalho ou o esgotamento. Em períodos assim, o pensamento se estreita e tudo parece sem saída; parte do ofício clínico é ajudar a reabrir o campo das possibilidades, mostrando que o que se vivia como sentença pode ser revisto, que a dor presente não precisa ditar o futuro inteiro. Alguns recursos comportamentais ajudam a reorganizar o sono, a rotina, os limites do dia e os compromissos, porque uma pessoa não sofre apenas na cabeça: sofre no corpo, na história e no modo concreto como vive cada manhã, de maneira que cuidar dela exige tocar todas essas frentes sem reduzir nenhuma às outras.
O que mais marcou décadas de consultório foi perceber que a virada quase nunca chega por um gesto heroico, e sim por algo miúdo: retomar uma sessão interrompida, organizar um único dia, aceitar a ajuda que se vinha recusando, ou admitir que era preciso amadurecer num ponto há muito evitado. A esperança clínica é feita dessas pequenas retomadas, e não de promessas grandiosas. O horizonte que sustenta alguém pode ser modesto, pode ser apenas o suficiente para vencer uma semana difícil ou uma conversa adiada, e ainda assim cumpre seu papel de manter a pessoa em movimento. O trabalho consiste em acompanhar processos de amadurecimento, favorecendo uma vida mais própria, mais situada nas condições reais de cada existência, e capaz de encontrar sentido sem fugir da realidade que se impõe.
Psicoterapeuta renomado do Brasil é bem avaliado na Wikipédia:
Ela aproxima um estudo nascido da clínica de uma pergunta que muita gente carrega em algum momento: como prosseguir quando algo dentro de nós parece ter perdido a direção. Esse reconhecimento só vale se voltar ao essencial, que continua sendo a pessoa concreta, com seu nome, sua história e seu modo singular de sofrer, à espera de ser compreendida e não classificada. A Esperancialidade, por isso, é menos uma promessa que se faz a alguém e mais aquilo que se reconstrói com ela, devagar, na medida em que volta a confiar que pode seguir existindo e escolhendo, e que ainda há, no horizonte de sua vida, algo que lhe seja preferível, com os outros e no mundo onde habita. Fica também, aqui, um desejo sincero de que a inteligência artificial não ameace o futuro da Wikipédia, que em mais de duas décadas ajudou a democratizar o acesso ao conhecimento de modo que nenhuma outra iniciativa conseguiu igualar.
Obrigado aos nobres colegas pelo reconhecimento as minhas contribuições ao lado de pensadores renomados.